Campismo por Luiz Edgar Tostes

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      Campismo por Luiz Edgar Tostes  (12-03-2010)


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CAMPISMO NO BRASIL

Abril 2001


Por: Luiz Edgar Tostes



O campismo organizado surgiu com a fundação do Camping Clube do Brasil em 1966, iniciativa de um grupo de jovens liderado pelo arquiteto Ricardo Menescal, adepto do que veio modernamente a se chamar de ?trekking? e do camping selvagem.

O campismo teve um forte crescimento na década de 70 chegando a 1 milhão de pernoites/ano somente nos campings do CCB.

A crise do petróleo, o crescimento da inflação achatando os orçamentos da classe média, base da clientela dos campings, promoveram um declínio na prática do campismo. Essa queda se acentuou na década de 90 em decorrência de novas opções de viagens, da precariedade da malha rodoviária e da segurança.

O número de campings organizados, que em 1980 era de 370, segundo o Guia Quatro Rodas, atingiu seu maior número em 1992 com 732 e nos anos seguintes, foi decrescendo até atingir 244 em 98. Estima-se que atualmente existam 350.

Em 1965, com a criação da Turiscar, fabricante de trailers e motorhomes com tecnologia alemã da Knaus surgiu uma florescente indústria de veículos de recreio. Mais tarde instalou-se no Brasil a Karmann-Guia produzindo principalmente trailers. E foram surgindo várias outras, concentradas principalmente em Novo Hamburgo (RS). Essa iniciativa ajudou a promover o hábito de acampar, ainda pouco difundido e dependendo de poucas áreas de camping organizadas. Nas décadas de 70/80 somente um dos fabricantes, a Turiscar, chegou a fabricar uma média de 20 trailers/mês. Para se ter uma idéia comparativa, o 5º fabricante americano produz 75 veículos de recreio por semana. A produção da indústria brasileira de VRs em 1975 atingiu 130 veículos/mês, e declinou em 1996 para 5, encontrando-se hoje em uma situação de recuperação limitada.

O declínio da atividade levou ao fechamento de várias indústrias de barracas, de veículos de recreio e de equipamentos. Marcos significativos dessa desaceleração da atividade foram o fechamento da Karmann-Guia em 1995 e, em 2000, da Turiscar, a mais antiga e completa indústria de veículos de recreio. A produção total dos fabricantes de veículos de recreio em 2000 foi de menos de 100 veículos.

A importação de equipamentos provocou o fechamento de vários fabricantes de barracas e equipamentos. Hoje restaram apenas 5 fabricantes de veículos de recreio, 2 indústrias mais representativas de barracas, mochilas e equipamentos, pequenas fábricas de carretas e equipamentos, e aumentou a importação de produtos para turismo-aventura e camping.

Entretanto, a ?onda verde? que varre o mundo, e se intensifica no Brasil, faz do ecoturismo o segmento que mais aumenta entre as várias formas de turismo ? 19 % ao ano.

Essa onda se reflete nas atividades de camping, na busca por uma forma alternativa de hospedagem, que oferece maior contato com a natureza. Recentes entrevistas com campistas mostram que o preço não é o principal fator motivacional, como pode se supor. Fazer camping é um estilo de vida. Os primeiros motivos são o convívio informal entre as pessoas, o que não é proporcionado por outras formas de hospedagem, a convivência mais íntima da família e o contato com a natureza. O preço aparece como fator mais significativo no segmento de estudantes.

No final dos anos 90 a curva de atividade do campismo chegou ao seu ponto mais baixo, mas a partir do início de 2000 nota-se uma mudança de inflexão e progressivo crescimento, que vem se refletindo na venda de barracas e equipamentos.

O setor de campismo sempre foi desestruturado e sem articulação. Tem se desenvolvido ao ?sabor dos ventos? sem qualquer organização. Existem apenas duas entidades de classe, uma de campings e pousadas (ABCP - Associação Brasileira de Campings e Pousadas), e outra que representa o setor como um todo (ABRACAMPING ? Associação Brasileira de Campismo), ambas ainda com limitada representatividade.

Como em outras atividades, o perfil do campista mudou. Ele busca maior contato com a natureza, mas não abdica de conforto, limpeza, atividades de lazer e segurança. Os campings, com honrosas exceções, não se equiparam para a nova realidade, em parte pela queda da atividade, não justificando novos investimentos mas, também, pela falta de formação do empreendedor para se adequar às necessidades do seu consumidor, como tem ocorrido em outros negócios.

Segundo o Camping Clube do Brasil, a frequência de seus campings é de 80 % de barracas e 2 a 4 % de motorhomes, dado que pode ser considerado válido para as demais áreas de acampamento. A faixa etária dos campistas entre 36/50 anos é de 63 %, sendo 53 % com escolaridade superior e 30 % com nível médio; renda familiar acima de 10 SM; a frequência de casais é 85 %.

A demanda, especialmente de jovens, nos pontos turísticos mais procurados, tem levado ao surgimento de áreas de acampamento sem a menor organização, condições mínimas de limpeza e que promovem flagrante degradação do meio ambiente. Entretanto, não existe qualquer material de orientação ou curso de formação profissional que possa orientar não só empreendedores mas também autoridades locais, sobre a instalação de campings organizados e preservação do meio ambiente nesses locais.

A tendência de aumento das atividades de camping é um fato mundial irreversível, e que já começa a se refletir no país. Enquanto estimamos que este ano existam aproximadamente 350 campings organizados no Brasil, só na França existem 9.000 e nos EUA mais de 16.000, o que comprova que acampar não é uma opção de custo de viagem mas de estilo de vida. Ainda nos EUA, em áreas preservadas pelo US Corps of Engineers existem 53.000 locais para ?camping selvagem?. Somente em um dos países europeus ? Espanha ? 5.2 milhões de pessoas hospedaram-se em campings em 2000, sendo 3.4 milhões campistas espanhóis. É preciso ressaltar que o alto índice de urbanização na Europa não oferece as opções de natureza do Brasil, Estados Unidos ou Canadá e, mesmo assim, o campismo continua a crescer.

No Brasil há um campo fértil para o crescimento dessa atividade, especialmente para turistas estrangeiros que buscam novas destinações ecoturísticas pouco exploradas e atraentes. Apesar de promoção ainda limitada, circulam pelo país ecoturistas estrangeiros, especialmente europeus, com suas mochilas e barracas. Argentinos e uruguaios, habituados a acampar em seus países, têm frequentado os campings do Sul, sendo que varios, com trailers e motorhomes.


Um setor sem números

A falta de estrutura do setor de campismo e a representatividade restrita das entidades de classe, não permitiram a organização de estatísticas consolidadas que ofereçam a projeção de um cenário real. Os números existentes são decorrentes de uma ?garimpagem? nos vários segmentos permitindo uma avaliação limitada da realidade do setor.

Indústria de veículos de recreio

Os veículos de recreio produzidos no Brasil equiparam-se aos europeus e americanos em nível de estrutura, conforto e acabamento. O mercado é limitado pelo preço, decorrente da pequena demanda e por não haver uma estrutura de custos e racionalização de produção. A produção é artesanal e cada motorhome consome uma média de 5.000 horas de trabalho.

A tributação também incide pesadamente nesses veículos, chegando a 47 %, não havendo qualquer forma de financiamento ao consumidor, ao contrário do que ocorre nos demais países onde ?caravanning? é uma atividade popular.

Curioso observar que trailers e motorhomes têm um ciclo de vida longo, de 20 anos em média, o que mostra o baixo risco em relação aos demais veículos.

Grave limitação para a indústria foi criada pelo Código Brasileiro de Trânsito que estabeleceu a exigência de carteira de habilitação modelo E para os motoristas de veículos que tracionam trailers de turismo - a mesma exigida para motoristas de carretas de carga de 40 toneladas - embora os trailers sejam veículos leves. O trailer sempre foi uma forma popular de acampar pelo custo relativamente baixo e por oferecer mais conforto e segurança que uma barraca. Funciona no mercado como a transição para o motorhome. Essa exigência paralisou a indústria, impediu os 10.000 proprietários de trailers de trafegar e restringiu a entrada de campistas do Mercosul que costumavam acampar no Sul com seus trailers.

O Brasil é o único país do mundo com essa restrição. Nos países da Europa, nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, onde o caravanismo é popular, não existe qualquer limitação desse tipo.

Encontra-se em tramitação no Senado Federal projeto de lei ? PLS 198/99 - para corrigir tal aberração.

A indústria está restrita a 5 empresas organizadas, embora de pequeno porte que, para sobreviver, desviaram sua produção para veículos especiais limitando a de motorhomes em função do encolhimento do mercado, e paralisando a de trailers por completa falta de clientela, decorrente da absurda exigência legal. Existem algumas ?empresas de fundo de quintal?, sem representatividade no mercado, que transformam ônibus em motorhomes, sem maior qualidade.

A frota de motorhomes hoje no Brasil está estimada em 3.000 veículos. Nos EUA é de 1,7 milhões e na Europa de 900 mil. No exterior os trailers têm muita aceitação constituindo uma frota de 3,4 milhões nos EUA e 3,7 milhões em 8 países europeus.

Indústria de Equipamentos

Especialmente os produtores de barracas sofreram um forte abalo com o declínio do campismo e a abertura para os produtos importados. Sobraram apenas duas empresas nacionais representativas que fabricam e importam equipamentos.

O mercado de equipamentos de camping no Brasil está estimado em 250 milhões de reais/ano e começa a apresentar firme indício de crescimento. Nos EUA este mercado em 1996 foi de US$ 2 bilhões.

A indústria de recreação ao ar livre nos EUA, faturou em 1996 um total de 431 bilhões de dólares, 80,6 % do PIB brasileiro naquele ano, o que demonstra a força deste setor na economia. Essa participação está em contínuo crescimento em decorrência da busca cada vez maior de atividades ao ar livre.

A principal multinacional do setor instalou-se no Brasil em 1994 e importa a maioria de seus equipamentos, mochilas e barracas. Considera o Brasil como um mercado muito promissor e vendeu em 2000 aproximadamente 2 milhões de peças.

O número de barracas existente no país está estimado em 500 mil. Segundo estudos de mercado desses fabricantes, a população de campistas e ecoturistas na década de 80 era de 2 milhões de pessoas, tendo declinado para 500 mil nos anos 90. Avalia-se que, atualmente, seja de 1 milhão, e em crescimento. Nos EUA 50 milhões de pessoas acampam pelo menos 4 vezes por ano e na América do Sul o número estimado de campistas é de 8 milhões.

Os campings

O Camping Clube do Brasil foi um dos principais responsáveis pelo crescimento do campismo no país, com a implantação de uma rede de 48 campings nas principais cidades turísticas, do Sul ao Nordeste. Nos seus áureos tempos chegou a ter 25.000 associados.

Até a década de 80 surgiram muitos campings particulares bem estruturados. O declínio do setor levou ao fechamento de vários. A falta de orientação aos empreendedores e autoridades municipais, a inexistência de manuais para a construção de campings e execução de serviços provocou um crescimento desordenado, muitas vezes desrespeitando padrões mínimos de respeito ao meio ambiente, de conforto e segurança para os campistas.

O Camping Clube do Brasil, única rede de campings existente no país, recupera-se da crise, como ocorreu com várias empresas que não se adequaram às novas demandas do consumidor. Seus campings não se adequaram ao padrão de conforto e instalações exigidos pelos campistas. Mais recentemente começaram a funcionar novos campings particulares e ocorre a modernização de alguns dos existentes.

É um círculo vicioso: não se criam novos campings por falta de demanda e os interessados em acampar que buscam maior conforto e melhores instalações vão para pousadas.

Os campings, como as pousadas, são meios de hospedagem de intensa sazonalidade pois, em sua maioria, estão situados em localidades turísticas. A tendência dos campings é oferecer meios de hospedagem diversificados para atender a demanda de outros tipos de clientela e atenuarem o problema da sazonalidade. Vários campings estão construindo chalés, apartamentos e alojamentos para grupos.

Situação crítica enfrentada pelos campings é a questão da tarifa de energia elétrica vinculada ao pico de consumo decorrente da sazonalidade. A maior ocupação dos campings ocorre durante o Carnaval e, consequentemente, é o pico de consumo de energia elétrica. O sistema tarifário das concessionárias toma como base o consumo desse período para estabelecer o valor que será cobrado durante o resto do ano. Essa é a razão principal que tem desestimulado o aumento da capacidade de energia instalada para proporcionar maior conforto aos campistas.

Outro problema desse segmento é o mesmo da hotelaria de pequeno porte e das pousadas: a dificuldade de obter financiamentos de baixo custo para construção, reforma e instalação de equipamentos. No papel existem linhas de financiamento, mas o acesso na prática é muito difícil.

Há uma demanda reprimida para instalações de campings em parques nacionais, que pode se transformar em importante fluxo de turismo, mas que precisa ser planejado de forma criteriosa. Nos Estados Unidos, em 379 parques nacionais estão localizados 440 áreas de campings.

Embora sem confirmação de uma pesquisa, a mão de obra direta ocupada nos campings está estimada em 5.000 pessoas, mas trata-se de um setor com grande capacidade de multiplicação em função das atividades industriais e comerciais decorrentes de sua demanda.

Programas de governo não abrangem o campismo

O campismo não tem sido incluído nos programas de governo para o desenvolvimento do turismo. Nem sequer é considerado como meio de hospedagem.

Recente trabalho do Instituto de Hospitalidade sobre o perfil dos profissionais no mercado de trabalho do setor de turismo, baseada em dados da (PNAD) Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, não inclui os campings, por não estarem incluídos naquela pesquisa como meio de hospedagem.
Não existem programas governamentais para o desenvolvimento do campismo como já ocorre com o ecoturismo e turismo rural.

Conclusões

O campismo para crescer ordenadamente, no ritmo de sua potencialidade e de forma sustentável, precisa de ações coordenadas que somente um programa específico de governo pode oferecer, como já ocorre para outras áreas do turismo.

Necessita de ações conjugadas de vários órgãos ? Sebrae, Senac, Embratur, Ibama ? que permitam a capacitação de empreendedores, de mão de obra, preservação do meio ambiente, financiamentos, levantamento de dados estatísticos, padronização de serviços, programas de qualidade, inserção no meio acadêmico, educação ambiental, sistema de informação e divulgação, etc.

Propõe-se a instituição de um programa nacional para o desenvolvimento do campismo, à semelhança do existente para o ecoturismo e do que está sendo estruturado pela EMBRATUR para o turismo rural.

Luiz Edgar Tostes ? Diretor
ABRACAMPING ? Associação Brasileira de Campismo
SCS Quadra 2 Bloco C Ed. São Paulo sala 325
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Tel. (61)322.6969 Cel. (61)9963.3001 Fax: (61)323.3322
luiztostes@uol.com.br

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